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terça-feira, 1 de setembro de 2015

ABUNDÂNCIA

bunda de estátua

 

Abundam as bundas na praia, seminuas, sem vergonha, como as índias do Pero Vaz de Caminha.

Caminham as bundas nas calçadas, muitas de calças, raras de saias, todas se insinuando, empurrando o tecido.

Abundam as bundas nas praças: uma bunda passa, uma bunda passa pra lá, outra bunda passa pra cá. Uma bunda vai, outra bunda volta. Há bunda que me revolta porque a bunda mexe pra lá, porque a bunda mexe pra cá, porque a bunda mexe... com a gente, que indigente pede esmola, a esmola de um olhar, de uma atenção qualquer, qualquer bunda de mulher.

A bunda bole, bole, bole, a bunda mole, macia, parece que diz bom-dia! A bunda bole com o moço, A bunda bole com o velho, com o homem maduro.

estatua-de-mulher bundaA bunda não olha idade, ela não tem a mínima caridade! Passou agora pela rua afora uma bunda tão triunfante que o moço deu com a cara no muro. Se a bunda passa, o olho sai à caça, mesmo quando é uma bunda escassa. Passa uma bunda exuberante, a b u n d a n t e. Há bunda que não passa... fica! Como diria Vinícius: “Essa pacifica!”

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Vida Literária I

Já lhe contei sobre minhas experiências no teatro, falemos então sobre minha lida na vida literária. Escrevi meu primeiro livro, de poesia, impulsionado por meus alunos, principalmente uma classe enorme (Anglo Consolação, SP) de alunos vibrantes e rebeldes, mas com os quais me dei muito bem. Eles fizeram uma lista com nomes e endereços no final do ano, 1986, pedindo para publicar meus poemas e avisá-los para irem ao lançamento.
O Improviso do PalhaçoEsta é a capa do livro, que contava com ilustrações de um aluno meu de outro cursinho (Intergraus); Carlos Naef. Carlos tinha na época 19 anos e cursava artes plástica na ECAP-USP. O prefácio foi escrito por um ex-professor de 1970 (na época da publicação era meu colega de trabalho no Colégio Bandeirantes) Ubaldo Luiz de Oliveira, que por amizade exagerou nos elogios. A edição de mil exemplares esgotou-se em um ano, o que para um iniciante considero uma boa aceitação. Em função disso, vi-me convidado muitas vezes para apresentar-me com o poema do palhaço em reuniões e eventos, e o mais surpreendente deles foi um em Campinas, no dia da criança. Apesar de eu ter avisado que o poema era para adultos, insistiram tanto que fui e quase morri de susto ao ver aquela grande quantidade de crianças à minha volta, agitadas, inquietas. Quando eu lhes pedi que se imaginassem em um circo, o ambiente pegou fogo. Uns viravam cambalhotas, outros pulavam como cabritos, enquanto os menos criativos rolavam pelo chão. Custei para fazê-los sentar-se em círculo e improvisei o quanto pude e, jamais conseguiria lembrar tudo o que fiz na ocasião, mas deu certo e eu consegui me fazer compreender. Chacon Palhaço
Depois disso, apresentei várias vezes em sala de aula, para introduzir a questão dos heterônimos de Fernando Pessoa, revelando que criei o palhaço e que ele mesmo usou-me para escrever sua história, seu poema, assim como Fernando Pessoa idealizou Alberto Caeiro, que depois produziu de uma só vez dezenas de poemas em um só dia. Claro, que euzinho, muito mais humilde e menos criativo não tive tanta sorte, foi só o poema Improviso do Palhaço e mais tarde Enfim, Mulher.

O vídeo abaixo exibe parte de uma apresentação minha em Mogi das Cruzes, numa sala de aula do Anglo, feito por alunos.


segunda-feira, 13 de julho de 2015

INTERLÚDIO

Sobre Ayrton Salvanini…Ator Ayrton Salvanini

Esqueci de contar um acontecimento importante, ocorrido durante o tempo em que trabalhei com o Grupo RIA. Houve um intervalo, em que me afastei para desenvolver um trabalho com um grande ator, Ayrton Salvanini, que fez uma escolha interessante, criticada por muitos, mas ele é quem ganha mais com isso. Passou a montar peças para apresentar nas escolas sem intermediários.
Antes de falar do trabalho com Ayrton no ano 2000, ou 1999, eu preciso contar como conheci esse ator. Ele me procurou em 1981, quando eu lecionava no curso Compromisso Vestibulares, na Consolação. Certo dia, fui procurado por ele, que se apresentou e me revelou o seu projeto.
Sermão da Sexagésima, do padre Antônio Vieira− Eu estou pensando em decorar e vender para escolas o Sermão da Sexagésima, do padre Antônio Vieira. Creio que deve ser do interesse dos estudantes de literatura e dos professores também, o senhor não acha?
Eu joguei um balde de água fria nele. Disse-lhe que no mundo atual, daquele fim de século, a juventude não teria interesse por sermões. Aconselhei-o a procurar outro texto. Ainda bem que ele não me deu ouvidos. Decorou, montou, e foi apresentar para mim e para meus alunos. Foi maravilhoso. Eu já vi cinco vezes e não me canso. Foi a peça que mais lhe deu dinheiro até hoje. Ele não parou nessa, foi aumentando o número de peças, principalmente monólogos. Montou a Apologia de Sócrates, Bicho do Mato, 22, Discursos de Hitler, Fernando Pessoa. Dessa eu me lembro mais, não só por ter visto várias vezes, mas também porque auxiliei na procura de textos e por ter bebido muito uísque enquanto trabalhávamos.
Eu sempre sugeria ao Ayrton que fizéssemos algo juntos, mas ele declinava doInterpretando Bras Cubas convite. Eu não conseguia entender o motivo. Acabei concluindo que era porque gostava de trabalhar sozinho. Quando eu estava no elenco do Brás Cubas, ele foi ver a peça. Depois da apresentação, ele me elogiou e pediu para passar na casa dele, dizendo que estava com ideia de um trabalho comigo. Então concluí que, antes, ele duvidava do meu potencial, mas ao me ver trabalhando, mudou de opinião.
Quando nos reunimos, ele expôs o plano; montar uma peça que seria intitulada Travessia, construída a partir de três livros da lista da FUVEST. Eu adaptaria os cantos III e IV de Os Lusíadas, ele escolheria alguns poemas de Libertinagem e nós dois faríamos, a partir de uma seleção de cenas de Morte e Vida Severina, todos os personagens. Imagine só a loucura! Eu achei absurdo, mas me lembrando do sermão do Vieira, fiquei quieto e me deixei levar. Ainda bem, porque a experiência foi maravilhosa e o Ayrton também. Dirigiu-me com economia e competência, o espetáculo ficou pronto rapidamente e pudemos nos apresentar em várias cidades. A melhor lembrança que tenho é de uma apresentação no Teatro Municipal de Osasco. Lotado, lotadíssimo! Aquela molecada toda falando, gritando. Havia alunos da última série do primário, apesar de termos recomendado que só levassem estudantes do Ensino Médio. O Ayrton vendo minha ansiedade, aconselhou:
Ayrton Salvanini− Olha, é muito comum, em situações como hoje, o ator correr com o texto para se ver logo livre da situação. Não cChacon com bebêaia nesse erro. Hoje, pelo contrário, faça tudo mais devagar ainda, fale pausadamente, mas sempre de olho firme neles, não deixe de olhar para eles. Devagar!
E foi o que fiz, com o maior cuidado, e, para minha surpresa, quando terminei a última fala do Velho do Restelo − “mas contigo se acabe o nome e glória! ” − a plateia toda aplaudiu freneticamente. Obrigado Ayrton.






terça-feira, 30 de junho de 2015

BRÁS CUBAS e meu ingresso no teatro profissional.

Meu caro amigo Jorge, depois da experiência na USP, não deixei mais de fazerMário de Andrade teatro, mas sempre no amadorismo, ocupando a maior parte do meu tempo lecionando. Cheguei a ministrar 15 aulas por dia, de segunda a sábado, em cinco cidades diferentes. Quando trabalhei no Pré-Médico na Consolação, criei um grupo de teatro com os alunos e montamos um espetáculo muito bonito com textos de Brecht e Mário de Andrade (foto) interligados com poemas de Drummond, Augusto dos Anjos e João Cabral de Melo Neto. Agora, como entrei no teatro profissional, foi interessante. Eu já estava com a Editora Flâmula, quando recebi um telefonema de um diretor de teatro que disse ter recebido orientação da produtora para pedir a minha ajuda. Ela tinha sido minha aluna e recomendou que ele não fizesse a adaptação do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas sem a minha assessoria.
Machado de AssisClaro que topei a parada e depois de vários dias de trabalho terminamos, então ele me pediu para ir ao teatro no dia da leitura com a finalidade de fazer uma palestra para os atores sobre Machado de Assis (foto) e seu romance. Fui e como faltou um ator, ele me pediu para ler as falas do Brás morto. Eu o fiz e ele gostou do que fiz. Resultado, convidou-me para interpretar o Brás morto. Rapaz, nunca um morto pulou tanto, fiz tanta pirueta, até parada de mão eu fazia no meio da plateia. Parada de mão é que nem plantar bananeira, mas sem pôr a cabeça no chão.José Paulo Rosa
Esse diretor chama-se José Paulo Rosa (foto) e o grupo é o Grupo de Teatro RIA. Trabalhamos no Teatro Lucas Pardo Filho durante muitos anos. Depois desta fizemos várias peças juntos: Caeiro em Pessoa, Sagarana, Primeiras Estórias. É um grupo de teatro de repertório, continuam trabalhando em São Paulo, só que agora num teatro muito melhor. Vivi muitos momentos de felicidade com esses trabalhos e sempre recebi muito carinho de toda a equipe. Morro de saudade de tudo aquilo.
image                 Sagarana